O Facebook é uma maravilha se você souber usá-lo. Infelizmente muitos não sabem. Passam correntes idiotas e compartilham imagens levantando uma bandeira sem conhecimento de causa.
O assunto da vez é a imagem de uma criança de nome Vitória que segundo a descrição seria uma criança “anacéfala” (isso mesmo, ainda escreveram o termo errado) que vivia bem e feliz. Pediam para compartilhar a imagem levantando a bandeira contra a votação do Supremo Tribunal Federal que acontece na próxima quarta-feira dia 11, que decidirá se mulheres grávidas de anencéfalos (termo correto) podem ou não interromper a gestação sem precisar recorrer à justiça.
Só pra refrescar a memória, a anencefalia é caracterizada pela ausência de córtex cerebral, camada externa do cérebro rica em neurônios e responsável pelas funções mais complexas do cérebro. Sem ele não há linguagem, percepção, emoção, cognição, memória. Mais.
Popularmente é denominada ausência total do cérebro e da caixa craniana. Sem cérebro não há vida. Existe no máximo o tronco cerebral que possibilita a respiração e outras funções. Quanto ao coração, um órgão relativamente autônomo, não precisa de estímulo cerebral pra bater por si só, explicando assim os batimentos cardíacos num anencéfalo.
A criança anencéfala normalmente morre durante a gestação, ou horas após o parto ou excepcionalmente alguns dias após.
Há entretanto, um caso de um bebê, uma menina que vivera 20 meses e apesar do diagnóstico inicial ter sido anencefalia, uma ressonância meses depois, constatou algumas porções do cérebro que mantinham suas funções vitais. Segundo especialistas, era um caso de encefalocele associada à microcefalia.
Mas voltando ao ponto, eu tenho a mania de fuçar e vasculhar tudo que vejo na internet antes de me posicionar sobre o assunto.
Encontrei o blog da bebê Vitória. A foto em questão não era montagem. É real. E o pior, foi usada sem autorização pra criar uma corrente tosca. Os pais deixaram a mensagem abaixo para que esta sim fosse compartilhada a fim de coibir o uso indevido da imagem.

Créditos imagem: Blog Amada Vitória de Cristo
Olá amigos, infelizmente alguém, sem nossa autorização, usou uma foto da Vitória com informações incorretas e promovendo de forma polêmica e sensacionalista o compartilhamento no Facebook. Ainda que esse post tenha intenção de promover a vida, e que a pessoa tenha tido boa intenção, tem também permitido comentários ofensivos e preconceituosos a uma criança (muito) especial. Por favor, não compartilhem essa corrente e peçam que deletem os comentários ofensivos a respeito onde a tenham visto. Se desejam divulgar a história dela, o melhor é compartilhar o blog – onde há inclusive um link para compartilhamento no Facebook – e onde a sua história de vida e sua deficiência são tratadas de forma séria e respeitosa, com moderação dos comentários. Por favor, compartilhem essa mensagem.
Muito obrigado,
Joana, Marcelo e Vitória
A história desse anjo é realmente incrível. Durante a gestação, ela apresentou ausência da calota craniana que resultou na inibição do desenvolvimento cerebral, porém não houve ausência “total” do mesmo como ocorre na anencefalia.
O diagnóstico atual da pequena Vitória é encefalopatia neonatal por malformação cerebral. Vocês poderão conhecer a história dela em seu blog.
Contudo, no meu entendimento, o exemplo da pequena Vitória não deve servir de exceção à regra para inibir uma votação favorável ao aborto de anencéfalo. Vitória sorri, se movimenta e interage, logo, possui massa cerebral. A mãe decidiu prosseguir a gestação e para sua surpresa e felicidade o diagnóstico não bateu com o prognóstico.
Mas esse é o ponto. O direito da mulher decidir se quer ou não prosseguir com a gestação anencefálica. Se após exames minuciosos e isentos de dúvidas constatarem a anencefalia propriamente dita, a mãe precisa ter o direito de decidir abortar sem precisar recorrer a decisão judicial. Se ela decidir continuar, deve ser por escolha e não porque foi impedida do contrário. Sabemos que existem desfechos realmente tristes e dolorosos de mães que esperaram meses pra conseguir a autorização do aborto de um bebê indubitavelmente condenado. É isso que precisa ser mudado.
Vale lembrar que uma decisão favorável do STF não irá legalizar o aborto em seu sentido amplo, mas irá ampliar o direito ao livre arbítrio de abreviar um sofrimento futuro e inevitável.
Pra encerrar, faço um convite à leitura do texto Chega de torturar mulheres da jornalista Eliane Brum sobre o assunto ao qual concordo plenamente.